Ozires Silva

Sonhador contumaz


por Cléia Schmitz

 

História de Ozires Silva é um exemplo de dedicação abnegada ao empreendedorismo e à inovação

 

Ozires na cabine de um Bandeirante reformado

A palestra de um senhor prestes a completar 80 anos de idade poderia despertar pouco interesse em jovens estudantes não fosse o engenheiro Ozires Silva o orador em questão. Nascido em 1931, na cidade de Bauru (SP), é possível que Silva tenha um espírito mais inovador do que muitos daqueles futuros engenheiros mecânicos que foram ouvi-lo no dia 20 de agosto de 2009, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis. Bem-humorado e com um currículo cheio de grandes feitos e boas histórias, as palavras do empresário funcionam como uma injeção de ânimo para quem está começando a vida profissional.

“O Brasil não tem o direito de ser pobre, temos que reagir”, destaca o engenheiro. Para ele, três chaves abrem as portas desse desenvolvimento: educação, inovação e empreendedorismo. “Hoje, o desenvolvimento de um país está centrado muito mais na competência do povo do que nas condições naturais. Vocês é que devem produzir a diferença competitiva de que precisamos”, conclama Silva. Ele tem moral para pedir atitude de uma plateia de estudantes prestes a entrar no mercado de trabalho porque foi exatamente o que fez quando jovem, ao liderar a criação da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer), em 196

 

Voo inaugural do primeiro Bandeirante, em 1968

Não é de hoje que Silva questiona a posição dos produtos brasileiros no mercado mundial. Ele ainda era um adolescente quando em meados da década de 1940 uma dúvida martelava em sua cabeça: por que não fabricávamos aviões, como faziam os americanos, se tínhamos o mesmo tempo de história deles? A tradicional justificativa de que fomos colonizados por portugueses pobres em vez de ingleses ricos não o convencia de jeito nenhum. Duas décadas depois, já formado pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Silva integrava a equipe que desenvolveu o Bandeirante, primeiro avião brasileiro comercializado pela Embraer.

O empresário dirigiu a companhia desde a sua criação, em 1969, até o ano de 1986, quando foi convidado a ocupar a presidência da Petrobras, onde ficou até 1988. Quatro anos mais tarde, depois de uma passagem como ministro da Infraestrutura do governo Collor, retornou ao cargo de presidente da Embraer, permanecendo até 1995. Nesse período teve a missão de conduzir o processo de privatização da estatal, consolidado em dezembro de 1994. Silva não esconde o orgulho que sente ao ver a Embraer ocupar posição de destaque no cenário mundial. Em 40 anos de história, comemorados no último dia 19 de agosto, a empresa acumula uma produção de cerca de 5 mil aviões comercializados para 88 países.

“Mostramos que é possível construir uma companhia absolutamente competitiva, mesmo num país como o nosso. Hoje, a Embraer é uma multinacional, mas com uma diferença importante: a sede fica em São José dos Campos, no Brasil”, destaca o engenheiro. Silva cita ainda uma constatação feita pelo economista Paulo Rabello de Castro de que o faturamento registrado pela Embraer em 2007 era suficiente para pagar as despesas do ITA por 100 anos. Da instituição saíram e ainda saem muitos engenheiros que atuam na companhia. “Sem o ITA, a Embraer não existiria”, garante Silva.

Pane humana

 

Dos primórdios da Embraer, Ozires Silva guarda histórias tragicômicas. Como o dia em que estava fazendo um voo de demonstração do Bandeirante em Campo Grande e esqueceu de baixar o trem de pouso na hora de descer. “Não sei o que me deu. Depois de levar quatro anos desenvolvendo a aeronave, eu próprio a havia destruído em poucos minutos. Chorei por todos os poros, mas infelizmente Deus limitou a inteligência, não a burrice”, brinca o empresário, aviador militar formado em 1951 pela Escola de Aeronáutica do Campo dos Afonsos (RJ). O currículo como piloto inclui quatro anos voando na região amazônica a serviço do Correio da Fronteira, mantido pela Força Aérea Brasileira (FAB).

A paixão de Silva pela aviação começou motivada por um grande amigo, Benedito César, o Zico. Foi na companhia dele que o engenheiro começou a frequentar o aeroclube de Bauru, onde conheceram um tenente suíço da Primeira Guerra Mundial que construía planadores. A partir de então os dois começaram a sonhar com a construção de aviões. Mas a vontade esbarrou na ausência de um curso de engenharia aeronáutica no Brasil. O ITA só seria criado alguns anos mais tarde, em 1950. O caminho mais próximo do que queriam era se tornar oficial da Força Aérea Brasileira (FAB). E lá foram Ozires e Zico prestar concurso para a Escola da Aeronáutica.

A primeira tentativa foi um fracasso, mas acordou de vez os rapazes. “Estudávamos até andando na rua”, lembra Silva. No ano seguinte, foram aprovados e, em 1951, se formaram aviadores. Mas continuavam sonhando em construir aviões em vez de apenas pilotá-los. Porém, em 1955, Zico morreu num desastre aéreo no Rio de Janeiro. Tinha apenas 25 anos de idade. Atordoado, Silva deixou de lado os planos que fez com o amigo. Só os retomou em 1958, quando levou um major aluno do ITA até São José dos Campos (SP). Na viagem, ele o estimulou a fazer a escola. No mesmo ano, fez o vestibular e passou. “Eu acho que naquele dia eu subi como oficial e desci como engenheiro.”

Logo após se diplomar pelo ITA, em 1962, Silva foi convidado a ficar no Centro de Treinamento Aeronáutico (CTA). Em 1966, fez uma pós-graduação no Instituto de Tecnologia da Califórnia, nos Estados Unidos. Depois disso, concentrou suas energias na criação da Embraer. O projeto exigiu perseverança de todos que fizeram parte dele, mas Silva teve um papel importante na hora de convencer o governo federal a assumir os investimentos necessários para a viabilização. Ele conta que o ministro da Aeronáutica já tinha deixado bem claro que apoiava a criação da empresa, mas não tinha intenção de colocar um centavo de dinheiro público no projeto. O problema é que a busca por investimentos na iniciativa privada deu em nada.

Foi então que o destino resolveu colaborar. E colocou Ozires Silva frente a frente com nada menos do que o presidente da República na época, o marechal Arthur da Costa e Silva. Era um domingo de abril de 1969, quando o operador da torre de controle do CTA entrou em contato com Ozires Silva pedindo que ele recebesse o presidente. Costa e Silva faria um pouso forçado em São José dos Campos por conta de um nevoeiro no campo de Guaratinguetá. E Silva foi a opção do operador que não havia encontrado nem o prefeito e nem o diretor do CTA. O engenheiro teve então uma hora com o presidente e não perdeu tempo. “Fiz uma lavagem cerebral e ele encampou a ideia depois de ver o protótipo do Bandeirante no hangar”, conta Silva.

Todas essas histórias Silva conta no livro A decolagem de um sonho – A história da Embraer, publicado em 1998, e reeditado no ano passado com o nome de A decolagem de um grande sonho. E lá se vão 40 anos da fundação da Embraer. Desde então, Ozires Silva nunca mais tirou férias. “Não sei o que fazer com horas de lazer”, admite. Casado e pai de três filhos, atualmente o engenheiro é reitor da universidade Unimonte, em São Paulo. Sua trajetória como empresário inclui ainda uma passagem pela presidência da Varig, entre 2000 e 2003, e o comando da PeleNova Biotecnologia, entre 2003 e 2006, fabricante do Biocure, membrana natural para cicatrização. É a atual menina dos olhos do engenheiro, um apaixonado confesso por tecnologias e inovações.

Com tamanha experiência, Ozires Silva foi convidado pela editora Campus para escrever o livro Carta a um jovem empreendedor – Realize seu sonho, vale a pena. O engenheiro também dá nome ao troféu de empreendedorismo concedido pelo Instituto Superior de Administração e Economia da Fundação Getulio Vargas. Por que empreender? Ozires Silva tem a resposta na ponta da língua: “Porque é bom. Assim como os pais gostam de seus filhos porque são suas criações, o empreendedor tem uma satisfação inexplicável quando cria algo novo. O que nos move é a criação.”

Bússola empresarial

O que fazer: Não desista de seus sonhos: desde adolescente, nos anos 1940, Ozires Silva sonhava em construir aviões, um sonho maluco para uma época em que não existia sequer televisão. Em 1968, ele integrava a equipe que fez o voo inaugural do Bandeirante, primeira aeronave fabricada pela Embraer. Descubra novos mercados: Silva diz que a Embraer fez um “gol de placa” ao focar seu negócio na aviação regional, um mercado descoberto naquela época. Hoje, a empresa é líder mundial na fabricação de aviões até 120 lugares.

O que não fazer: Deixar de investir em inovação: apostar em tecnologias novas é o único caminho para agregar mais valor aos produtos e competir num mercado global. Para Silva, um dos problemas brasileiros é que focamos nosso comércio exterior em commodities, mercadorias com baixo valor agregado.

Ozires Silva

Data de nascimento: 8 de janeiro de 1931
Cidade: Bauru (SP)
Formação: Oficial aviador e piloto militar pela Escola de Aeronáutica do Campo dos Afonsos (RJ), engenheiro aeronáutico pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA/SP) e mestre em Ciências Aeronáuticas pelo California Institute of Technology (EUA)
Empresas: Presidiu a Embraer (1970-1986 e 1991-1995), a Petrobras (1986-1988), a Varig (2000-2003) e a PeleNova Biotecnologia (2003-2006)

Linha Direta:
 
Ozires Silva: www.oziressilva.com.br

 

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